domingo, 24 de julho de 2011

Embora não saiba


Embora não saiba, embora não imagine, embora não diga... Guardo comigo cada traço do teu rosto, sei das tuas cicatrizes, das quais eu gosto tanto. Sei do jeito como sorri, sei do jeito como olha fixo para as coisas e pessoas com teus olhos quase que empiscáveis, sei da tua cara brava e sei do teu coração mole, isso não me engana, não se engana. Sei do jeito como passa a mão no cabelo e de como arruma a camisa, sei que gosta de estar perto de mim, nem que seja só por um momento. E sei disso tudo porque eu sinto, aliás, o que eu mais faço é sentir, sentir sem falar, sentir e calar. Não quero me tornar vulnerável, não quero expor minha fraqueza ou meu aparente fracasso, ao dizer com a minha verdade angustiada, uma verdade que talvez não tenha retorno, uma verdade não recíproca, que sim, sinto frio na barriga e borboletas no estômago quando te tenho em mim, quando te encontro em mim, quando te vejo chegando. Eu sei, embora não saiba. E sei embora que nunca diga, embora que nunca venha lhe dizer.

Bruna Eccel

segunda-feira, 18 de julho de 2011

E daí?


Hoje eu acordei achando tudo sem a menor graça, então decidi ir deletando tudo aquilo que não queria mais, aquilo que não abria mais o meu sorriso. Eu acordei desacreditando, acordei não querendo mais amar. Acordei com desesperança, com uma vontade quase que irresistível de não fazer nada. E quando eu realmente acordei e dei por mim, eu ri, eu dei gargalhadas. Quem sou eu pra desacreditar em alguma coisa, eu quero muito acreditar em tudo, em tudo que eu decidir acreditar, sabe por quê? Eu tenho vida e tenho só essa.
E daí se alguém já te fez chorar? E daí se alguém já te negou um abraço? E daí se alguém já te disse palavras falsas? E daí que tu já caíste em uma grande ilusão? E daí que tu perdeste o emprego? E daí que o teu coração já foi quebrado em mil pedaços? E daí? E daí, tu aprendeu muito com todos esses teus “E daís” e o que te torna forte é essa quantia de “e daís” que tu junta ao longo de toda essa tua vida esses e daís fazem parte de ti. E daí tu vai tentar ensinar teu filho, teu amigo, teu irmão, todos aqueles a quem tu deseja o bem pra não passar pelos mesmos e daís ruins que tu já passaste. Mas não adianta todo mundo precisa passar por cada um desses e daís. E daí, meu caro, que a gente descobre que nunca se têm e nunca se junta “E daís” suficientes nessa vida, e daí ela sempre te ensina cada dia mais, te acrescenta um e daí a mais e que ela não para pra te ajudar a levantar e que nós temos que ser fortes sempre apesar de qualquer e daí. E aí tá a graça, e daí que saí toda essa graça que é viver.

Bruna Eccel

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Arrumadores de mala


Eu faço de mim um albergue para todas as coisas que sinto, que quero, para todos os meus segredos mais profundos. Eu guardo tudo ali, em mim e pra mim. Só que de vez em quando, quando o dia amanhece eu tenho que juntar tudo isso, todos os meus achados e perdidos e jogar assim mesmo pra dentro da mala, a mala que é a cabeça. E fica assim, tudo meio que perdido e bate aquela confusão dentro de mim, mas uma confusão boa. Durante o dia eu vou dando uns retoques nessa mala, eu vou dando meu jeito pra deixar tudo organizado, pra quando chegar o final do dia estar tudo certo lá dentro, aqui dentro de novo. Mas dai em cada final do dia eu olho pro céu e vejo que tá tudo certo sim, eu vejo que sempre tá. E em cada final do dia eu acrescento mais alguma coisa nessa bagagem pra juntar com todas as outras que já estão por lá. Então eu me recolho de novo no meu albergue e digo a mim mesma que quem complica tudo aqui somos nós mesmos, os nossos próprios arrumadores de mala. Cada um sabe o que vale a pena levar ou tirar. Cada um sabe a mala que carrega, se é que me entende.

Bruna Eccel

domingo, 10 de julho de 2011

A mulher que eu ainda não soubera o nome


Cheguei, fui logo pedindo um café e tratando de arrumar alguma mesa pra eu sentar. Havia uma única moça ali, além de mim. Senti-me acuado ao sentar perto dela, como nunca me senti antes em relação a alguém. Assim, meio que desviando os meus olhos e olhares, tentando resistir, sem conseguir eu observava cada traço dela, cada curva e cada gesto. Logo vi, era daquelas mulheres enigmáticas, era uma mulher com ar de menina ou uma menina com ar de mulher.
Ela incrivelmente tinha olhos curvados e ao mesmo tempo puxados, eram profundos, uma espécie de verde-castanho-mel eram quase desenhados. Seus cabelos eram lisos, longos, castanhos e extremamente brilhosos. Ela era magra, mas tinha curvas acentuadas, não era baixa, nem alta, mediana com pernas longas torneadas. Sem contar que ela vestia calça skinny vermelha, jaqueta de couro preta e botas.
Ela estava debruçada sobre o braço esquerdo, com uma xícara de café, e uma garrafa de água ao lado. Podia notar que estava escrevendo, em um pedaço de papel qualquer, se encontrava em alfa, em plena concentração, não a via nem sequer piscar. Foi ai que sem esperar ela levantou o rosto em minha direção, num breve susto desviei o olhar. Ela olhara apenas para frente como se ao mesmo tempo não olhasse para nada, assim, conclui que ela apenas estava pensando, buscando o que continuar caligrafando naquele papel. Nesse meio tempo, consegui notar que ela tinha mania de morder a boca do lado e a pele do rosto era como porcelana, tinha bochechas rosadas, nariz fino e sobrancelhas delicadas.
Perguntava-me a mim mesmo o que me fazia prender tanto a atenção nela.
Sem esperar, ela sorriu para mim perguntando-me qual seria o meu nome. Respondi: “William, por que?” Pensei comigo mesmo, ora por que? Sentindo-me um tolo de não retornar a pergunta. Em uma fração de segundos a vi passando do lado de fora, pelo vidro me lançou um breve sorriso envergonhado e foi. Eu apenas soube ficar paralisado.
Agora e todos os dias lembro-me de cada detalhe que descrevi sobre essa mulher. Esperando poder tirá-la do meu pedaço de papel. A mulher que eu ainda não soubera o nome. É assim que eu a imagino.

Bruna Eccel