sábado, 21 de abril de 2012

Poetizar





Eu tento poetizar tudo, mesmo sabendo que a vida não é poesia. Poesia sempre bonita, boa. Ou, até ser, e pode ser livro também. Mas, a verdade é que a gente nunca sabe qual é o título do livro, nem o conteúdo, nem sequer a introdução. Porque, quem vai escrevendo é a gente mesmo, e é muita responsabilidade ser o escritor da própria história, mas tem de ser assim. Então, quero ser poetiza, poetizar cada linha do meu livro. Poetizar da melhor forma, até dar forma ao que não faço possível de entender, deixando algumas linhas em branco, talvez, mas deixando essa poesia exatamente com a minha cara, com o meu nome no final. E acho que deveria ser assim, deveria-se poetizar mais, poetizar o viver, poetizar-se. 

Bruna Eccel

sexta-feira, 23 de março de 2012

Pontos

Do ponto de exclamação, gosto pouco. E do que exclama o tempo todo, pra tudo. Gosto das reticências, do que é capaz de continuar e do que continua quando é bom, necessário. Gosto de vírgulas, de separar as coisas e de quem sabe separar. Mas gosto mesmo é de ponto final, do que tem certeza. Quando é pra acabar, acaba. Mas tá sempre pronto pra começar uma nova linha. E assim, sou eu. Pouquíssimos pontos de exclamação. Pra que quando sejam exclamados, que seja com verdade. Sou pura reticências, mesmo quando não sei bem o caminho. As vírgulas separam cada parte minha. Sonhos, jeito, anseios, vontades, verdades. E a verdade é que sou feita mesmo de pontos finais. Esses já disse, mas dizem por si só. E os dois pontos: Algo está por vir. Ah, mas as interrogações? Elas que me movem, vontade de sempre saber. Apesar, Elas que movem tudo aqui.

Bruna Eccel

terça-feira, 20 de março de 2012

Companhia de estar só


Leio jornal de ontem, fico deitada, não faço quase nada, espero o amanhã, deixo pra amanhã. Coloco um rock. Me animo pra olhar um filme mais tarde, talvez. Lembro-me do lado mulherzinha, quem sabe ele me diga quais os problemas em não se sentir só. Nem um, palpite. Eu olho pela janela e o vento bate forte lá fora. Numa tarde bonita de sol. E eu me sinto aqui, tão bem com ele, na companhia dele, do sol. Penso no sorvete que está no freezer, mas a dona barriga pede pra ser amiga e parar por ai. É bom se sentir bem, se bastar. É bom pensar, aproveitar a própria companhia. É bom se acompanhar, se conhecer, perguntar pra si mesmo, como vai? Ter nosso tempo, nos levar pra passear, ter a nossa solidão boa. É bom fazer tudo do nosso gosto, quando dá. É bom ter um tempo pra alma. E quando a gente gosta mesmo da própria companhia e consegue se suportar. Já da pra começar a pensar em companhia pra própria companhia. Companhia de sentir-se bem só e juntos melhor. Como se estivesse na absoluta solidão, por ser exatamente como é ao lado de alguém. Ela ao lado dele, ele ao lado dela. Companhia de estar somente juntos, companhia de estar só.

Bruna Eccel

domingo, 11 de março de 2012

Um passo a frente e dois para trás


Então, sempre tem muita gente que não entende muito bem como ela é, mas ela é assim mesmo. Um dia veio-me ela aqui dizer “Abri a janela deixando o sol entrar dizendo a mim mesma que ninguém me segura mais. Como nada nunca me segurou, nem ninguém. Levantei a cabeça, e segui. Andando por ai, com um rumo traçado no pensamento, como todos os outros rumos que já tomei.” É assim, ela é assim. Um passo a frente e dois para trás. Caminha devagar, olha bem o caminho, observa, apalpa, analisa. Aprendeu a ser assim, tem de ser assim. Costuma nunca contar com a sorte, pensa que a sorte é quem tem de contar com ela. Caso se encontrarem por ai, no caminho. Ela é mesmo assim, cheia de si. E quem tem de ficar fica, quem quer ficar fica. Quem te gosta como é sempre fica. E se não, segue assim, segue no teu passo. Segue no passo que sempre seguiu e muda de planos se necessário, mas não muda tua essência. Nem teu jeito, nem teus suspiros que sempre dizem algo que vêm além de dentro e bem do fundo. É um passo a frente e dois para trás, caminha devagar. E segue desse teu jeito único de saber bem onde pisa e aonde quer chegar. Olha bem o caminho, olha até para trás do caminho e observa com cuidado os passos já dados e por necessário jamais repita a pegada errada, o caminho errado, o erro. Apalpa tudo na volta e apalpa todos, analisa quem tem do teu lado, analisa quem te quer bem e quem te quer mal também. Tem de ser assim, saber quem é quem. Com quem se pode contar além. A sorte vai estar sempre ao teu lado, mas não conta com ela. É sempre mais capaz só, sabes disso. Ela sabe, eu sei. É assim, quem tem de ficar fica, sempre fica. É um passo a frente e dois atrás. Não entrega teu coração fácil, entrega a quem se prova capaz. Ela continuou me dizendo: “Eu tô ausente, sai pra amar. Eu tô ausente, ocupada, e não sei quando vou voltar. Eu tô em estado de inércia indeterminado. Eu tô aproveitando tudo que há de bom nessa vida. Eu tô com o coração cheio. Cheio de esperança, cheio de carinho, cheio de risada, cheio de amar, de amor, de coisas boas. Eu tô na boa, eu tô bem. Não vêm me perguntar pra que ou por quem. Eu tô aqui sorrindo a toa, sorriso bobo, fácil, tranquilo. Eu tô tranquila, a cabeça num sossego, numa paz. Eu tô bem e só quero mais. Quero mais abraço, mais carinho e atenção. Tô até aberta a sugestão. E é tão bom quando a gente tá bem, tudo fica bem, tudo fica bom junto. Tudo fica fácil, é só relax. Não me venhas falar dos seus problemas, eu não tô mais aqui. Não me venhas falar do seu dia eu sai por ai. Não me venhas falar, eu não quero saber. Não me venhas gritar, não entendo o porquê. Não venhas com conversa fiada, nem sequer com explicação. Nem com jeito manso no meu jeito firme ganho razão. Não me venhas mais, nem me venhas. Nem me veja, não quero nem ver. Não quero saber, não quero dizer. Só volto se for pra sorrir com mais força". E terminou dizendo: "É um passo a frente e dois para atrás, um passo a frente e dois para trás”. Do jeito seguro dela, dizendo que um dia irei entender o que nem ela mesma entende. Mas a gente se dá bem. Ela não vive sem mim, por mais que tente. E eu me sinto capaz, apenas por bater no peito dela e de estar ali quando ela vê que nem sempre consigo ser de pedra.

Bruna Eccel

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Hoje é dia


Hoje eu dormi com chuva, dormi por que já passava da meia noite. Passei a noite com chuva e acordei com ela também. Passei o dia com chuva. É engraçado o dom que a chuva tem de fazer nos acolhermos em nós mesmos. Chuva da vontade de recolher tudo pra dentro de si, de ficar quietinha, de se aprochegar, de se aproximar mais pra perto da gente. Chuva é acolhimento de o próprio ser. Acolhimento do que se é, do que já se foi, do que está sendo, do que já se passou. É dia de observação, dia dos sentidos. O barulhinho das gotas caindo no chão, o desenho que cada uma faz na janela, e qual a mais rápida. O jeito que cada uma escorre por ai e vai lavando e levando e molhando tudo por onde cai e passa. Dia de chuva é dia de deixar levar da alma tudo aquilo que não faz bem, é deixar ir lavando e levando cada coisa ruim, com coisas boas que se vai pensando. Chuva é dia de chocolate, seja ele quente ou em barra. É dia de namoro quando se tem, e quando não tem é dia de namorar a si próprio. Às vezes, nada melhor do que ser só e se sentir só. De ter tempo pra nós mesmos e se sentir bem assim. Chuva é dia do sono pesado, do sono tranquilo, do sono demorado, do soninho de tarde, do sono relaxado depois do dia exaustivo de trabalho, e do sonho bom. Chuva é dia de carteado com os amigos. Também é dia de se aproximar para não fazer nada. É dia de companhia por que realmente se gosta, não com propósito de ser ou fazer algo. Chuva é dia de pipoca salgada e doce, é dia de assistir o filme favorito. E quem diz que dia de chuva é dia chato, é por que não sabe o quanto é bom estar com alguém só pela companhia ou ser a própria companhia e se bastar. É não saber se auto aproveitar.

Bruna Eccel